quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

O Filme “proibido” do comediante Jerry Lewis: “O Dia em que o palhaço chorou” (1972)

        
          Não precisamos ratificar o óbvio: Jerry Lewis (1926-2017) foi um dos maiores comediantes da história do cinema. Seus inconfundíveis personagens, sempre marcados por suas condutas desastradas e por nutrirem sempre uma profunda ingenuidade diante das mazelas e das corrupções do mundo, marcaram o gênero da comédia cinematográfica, principalmente durante as décadas de 1950-1970. Filmes como “O Mensageiro Trapalhão” (1960), “O Terror das Mulheres” (1961), “O Professor Aloprado” (1963), dentre outros, obtiveram um enorme sucesso de crítica e de público, alavancando ainda mais o sucesso de Jerry Lewis como um dos maiores cômicos de sua época e certamente de toda a história do cinema.

Jerry Lewis em "O Professor Aloprado" (1963)

         A emergência dos anos 1970 traria, no entanto, a ocorrência de um acontecimento marcante na carreira de Lewis: o arquivamento de um filme por vontade própria.
Tudo começou quando Lewis, no auge, passou então a procurar roteiros de filmes que fugissem bastante de tudo aquilo que havia produzido, dirigido e atuado em sua carreira. Como consequência desse expediente, o comediante acabou entrando em contato com um argumento fílmico produzido por Joan O´Brien e Charles Denton, sob o título de The Day the Clown Cried,  em suma, O Dia em que o Palhaço Chorou.
         Ao ler o argumento, o comediante não teve dúvidas: se trataria de algo inédito em sua carreira. Até então acostumado com a produção de  comédias urbanas, o comediante então vislumbrara a oportunidade de produzir e atuar em um filme de comédia dramática ambientada em um contexto histórico recentemente vivenciado.
         Tratava-se da possibilidade de reprodução da história de um palhaço chamado Helmut Doork que, vivendo durante os anos da Segunda Guerra Mundial, acaba sendo confinado em um campo de concentração após efetuar gozações frente à figura de Adolf Hitler. Não satisfeitos com a punição, os chefes do campo de concentração impõem como função primordial desse palhaço, o dever de entreter as crianças judias em seus percursos até as câmaras de gás.
         Empolgado com a possibilidade de rodagem deste filme que alteraria os rumos de sua carreira, o comediante Jerry Lewis passou então a se preparar para a atuação, passando então a visitar alguns dos campos de concentração do regime nazista, como o de Aushwitz e Dachau.

Jerry Lewis durante a gravação de O Dia em que o Palhaço chorou.

         Tudo estava preparado. O Filme passou a ser rodado então a partir do ano de 1972. Porém, com o passar dos dias de filmagem, o comediante Jerry Lewis acabou sendo acometido de um forte sentimento de arrependimento. Passou a considerar uma “péssima ideia” a realização da película em questão. Como tratar de um tema tão dolorido como o holocausto por meio da comédia?!
         O filme foi então abruptamente interrompido e arquivado por Jerry Lewis. À vista disso, se tornou também uma espécie de “assunto proibido” nas entrevistas e conversações travadas perante o comediante. Em uma entrevista recentemente dada, em 2013, no Festival de Cannes, o comediante Jerry Lewis, quando indagado sobre a misteriosa e inacabada película, respondera que: “É mau, mau, mau. Poderia ter sido poderoso, mas escorreguei”.
         A desilusão de Jerry Lewis com a película se fazia de tal grandeza que o próprio proibiu a sua reprodução durante a sua vida. Mesmo após ceder uma cópia do filme a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, Jerry Lewis determinara que o filme somente poderia ser aberto ao público após dez anos de sua morte.

Jerry Lewis durante a realização do filme. 

         Jerry Lewis falecera em 2017, aos 91 anos de idade, por conta de uma doença cardiovascular. É possível que em 2027 tenhamos a oportunidade de assistirmos a esta tão polêmica obra cinematográfica produzida pelo comediante em questão.
Há quem diga que o que Lewis fizera não se distanciara do que Roberto Benigni orquestrara no seu “A Vida é Bela”(1997), quando o diretor e ator se utilizara da comédia para contar a história de um pai que procura, a todo custo, criar um ambiente lúdico de jogos e brincadeiras para o seu pequeno filho, a fim de distanciá-lo dos horrores da guerra.

O Dia em que o Palhaço chorou.

Resta aguardar o ano de 2027. Mas fica a pergunta em questão: é possível trabalhar temas tão profundos, complicados e doloridos através do artifício da comédia? Trata-se de um erro? Uma falta de respeito? Ou não?

Ass. Rafael Prata
Doutorando em História na Universidade Federal de Mato Grosso

domingo, 29 de janeiro de 2017

Vera Clouzot: Uma grande estrela “sergipana” do Cinema Francês


 Tudo bem. Antes que me apontem o “erro”, conheço o fato de que Vera Gibson Amado – ou Vera Clouzot para o público cinematográfico francês – nascera no Rio de Janeiro no dia 30 de dezembro de 1913. Era, portanto, carioca.
Vera Clouzot

       Mas, corria em suas veias o sangue sergipano. Vera era filha de Gilberto Amado, um renomado intelectual brasileiro nascido em Estância, Sergipe, no ano de 1887. Oriundo de uma família de escritores, Gilberto Amado – primo do baiano Jorge Amado – fora um advogado, diplomata, escritor, jornalista e político brasileiro de reconhecida influência no cenário nacional da primeira metade do século XX, tendo atuado como deputado federal por Sergipe em 1934, diplomata a serviço do Ministério das Relações Exteriores em 1936, ex-presidente do Comitê de Direito Internacional na ONU, dentre tantas outras funções ocupadas.

Gilberto Amado

Em 1911, Gilberto Amado casara-se com a pernambucana Alice do Rego Barros Gibson com quem passara a residir no Rio de Janeiro. Dois anos após a realização deste matrimônio, nasceria então Vera Gibson Amado.
A trajetória da jovem Vera no Cinema se iniciaria de maneira surpreendente, após esta iniciar um relacionamento com o ator Leo Laparet, um artista francês que se encontrava em turnê pelo Rio de Janeiro com a companhia de teatro Louis Jouvet, em 1941.  Após casar-se com Leo Laparet, Vera Gibson Amado acabou por se mudar com seu cônjuge para Paris em 1947, onde passara a acompanhar o seu marido durante as gravações dos filmes em que este participara.
Foi assim que numa dessas filmagens, a atriz acabou conhecendo no set de filmagem o diretor Henri-Georges Clouzot, um dos maiores cineastas franceses de todos os tempos, especialista no gênero suspense. Apaixonada, Vera separou-se de Leo Laparet, para casar-se com Henri-Georges Clouzot em 15 de janeiro de 1950.

Henri-Georges Clouzot e Vera Clouzot

Firmado o matrimônio, a outrora Vera Gibson Amado, se torna então Vera Clouzot, a musa e principal atriz dos filmes de Henri-Georges Clouzot. Sua primeira atuação ocorrera na película “The Wages of Fear” (1953), quando passara a receber de imediato uma série de elogios da crítica especializada.
Todas as atuações de Vera Clouzot ocorreram nos filmes de Henri-Georges. Com ele, atuara também em “O Salário do Medo” (1953), “As Diabólicas” (1955), “Os espiões” (1957) e “A Verdade” (1960).

Vera Clouzot em  "As Diabólicas" (1953)

A carreira da jovem e promissora Vera Clouzot acabou por ser drasticamente interrompida em 1960, o que explica a sua curta filmografia, após esta ter sido acometida por um ataque cardíaco que a levou a óbito aos 47 anos de idade.
De uma beleza singular e caracterizada por atuações fortes e marcantes, Vera Gibson Amado, ou, Vera Clouzot, é recordada até hoje como uma das maiores atrizes de todos os tempos do cinema francês.

Ass. Rafael Prata
Mestre em História pela Universidade Federal de Sergipe

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

A experiência visionária em “Machete” (2010): a eleição de Donald Trump, a construção do muro na fronteira Estados Unidos-México e a situação dos latinos em solo americano

É certo que não é de hoje que uma ala da sociedade americana tem defendido a proposta de construção de um “muro” divisor entre os Estados Unidos e o México. Tal proposta separatista quase sempre fora encabeçada por indivíduos/grupos de matriz reacionária que, em momentos de crise, procuraram sempre enxergar na presença do “outro latino” a raiz de todos os seus problemas.
Esta questão galgara tamanha força que se tornara, inclusive, uma das principais “propostas” defendidas pelo “republicano” Donald Trump durante as eleições presidenciais ocorridas neste ano de 2016. Ao apresentar-se como candidato, o milionário empresário Trump procurou então apresentar como um dos pilares de seu governo, a aplicação de uma serie de rígidas leis de imigração calcadas justamente na construção de um “eficiente” muro ao longo da fronteira Estados Unidos-México.
     Em uma entrevista concebida ao canal MSNBC, Trump anunciara, inclusive, que os gastos com a construção deste muro divisor seriam então entregues ao próprio México como parte de uma “dívida” que aqueles supostamente nutririam com os Estados Unidos. Segundo este: "É uma pequena fração do que, provavelmente, perdemos com o México. Temos um déficit comercial astronômico com o México. Fazemos tantas coisas pelo México e perdemos uma fortuna nos negócios com eles."

Trump e a sua "promessa" de construção de um muro na fronteira EUA-México

         Nesse sentido, o governo mexicano se tornaria então o responsável por aplicar uma soma de 8 bilhões de dólares a fim de arregimentar um muro divisor entre as fronteiras americanas e as mexicanas.  Em resposta a esta proposta de Trump, o ex-presidente mexicano Felipe Calderón respondera com as seguintes palavras: "Não vamos pagar um só centímetro para um estúpido muro como esse. E é preciso que saibam”.
       Ao assistir os meandros da campanha presidencial alçada por Trump não tive como não recordar da película “Machete”, do diretor Robert Rodriguez, lançado em 2010. Nascido em San Antonio em junho de 1968, Rodriguez, filho de mexicanos imigrantes, Rodriguez se tornara, desde os anos 1990, um dos diretores americanos mais reverenciados, tendo produzido uma série de películas de ação cuja temática quase sempre acaba refletindo questões políticas envolvendo as relações entre os americanos e os mexicanos.

Robert Rodriguez, Jessica Alba e Danny Trejo no lançamento de "Machete" (2010)

      O ápice desta posição cinematográfica se deu certamente com a produção da película “Machete” no segundo semestre de 2010. Contando com um elenco estrelado – nomes como Robert de Niro, Steven Seagal, Danny Trejo, Jessica Alba, Michelle Rodriguez, entre outros -, o cineasta levou as telas então a história de Machete Cortez, interpretado por Danny Trejo, um ex-agente federal mexicano, que após ser traído por seu chefe corrupto, acaba perdendo a sua filha e esposa em um assassinato cometido por um traficante de drogas.

Poster Promocional de "Machete" (2010)

       Três anos após este acontecimento trágico, Machete, agora operário, acaba aceitando então a oferta de um empresário para assassinar o Senador John McLaughin, candidato a presidência da república, cuja proposta de governo é justamente a expulsão de todos os imigrantes mexicanos e a posterior construção de um muro elétrico que impedisse a entrada daqueles.
      Ao aceitar a proposta, Machete acaba caindo novamente em um ardil, de maneira que acabou sendo usado como um bode expiatório pelo empresário e pelo senador em questão como parte de um plano que visava representar todos os mexicanos como sanguinários terroristas, a fim de convencer a população americana de que a construção do dito muro elétrico seria a melhor solução a se seguir.

Senador John McLaughin, interpretado por Robert de Niro.

    Apesar de todo o caráter “trash” nutrido pela película, repleta de mortes sangrentas e diálogos canastrões, a película “Machete” soube captar muito bem o estado da questão desses debates, discutindo é certo da sua maneira bastante peculiar à problemática questão da fronteira americana frente aos mexicanos e, sobretudo todo um “ideário” separatista simbolizado na construção de um muro divisor.
     Não sabemos se este muro será construído. O recém-eleito presidente Donald Trump ao alçar esta proposta como um dos pilares de seu governo, tem se mostrado resoluto na execução desta “promessa”.
    O que podemos afirmar é que tais medidas certamente acabarão causando um profundo estremecimento nas relações entre os Estados Unidos e o México, relações estas que historicamente nunca foram das melhores, abrindo assim espaço para um quadro de imposição de hostilidades ainda maiores para os “outros” residentes em solo americano. Mexicanos, brasileiros, porto-riquenhos, etc, tendem a serem ainda mais hostilizados, evidentemente que sem generalizar esse pensamento hostil para toda a população norte-americana, em uma conjuntura governamental que de imediato deve se mostrar cada vez mais hostil a presença daqueles.

Ass. Rafael Costa Prata.
Mestre em História pela Universidade Federal de Sergipe.



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