sábado, 17 de janeiro de 2015

Calígula (1979): quando o que era para se tornar um "épico" se tornou o “pornô” mais famoso e polêmico da história do Cinema

1979. O aclamado romancista e dramaturgo Gore Vidal (1925-2012) escreve um roteiro para ser transposto para o Cinema. Tratava-se da história do famoso Gaius Caesar Germanicus, o famigerado Imperador Calígula do Império Romano.
         Tudo certo até o presente momento, pois o gênero épico e em especial a produção de películas voltadas ao Império Romano já haviam se tornado uma tônica de sucesso no mercado cinematográfico. No entanto, ao contrário das demais películas sobre o Império Romano, Calígula contou com total repúdio das empresas cinematográficas, dos diretores de renome em Hollywood, enfim, do alto escalão do cinema norte-americano.
    Tudo isso "graças" ao modo como seus pensadores desejavam retratar a ascensão e a queda de Calígula: através de um incontável número de cenas de sexo explícito, de masoquismo, bacanais, e etc. Obviamente que o grande filão do Cinema se chocou diante de tal roteiro e de imediato recusou-se a participar de tal empreitada.
         Não restou outra opção a não ser procurar “vias alternativas” para a realização do filme. O diretor procurado e escolhido foi o italiano Tinto Brass, conhecido a época por suas produções eróticas. Restava contar com o apoio de alguma produtora que pudesse patrocinar a realização do filme. Eis que a Penthouse, uma grande empresa do ramo pornográfico norte-americano, vislumbrou a chance de se projetar no meio do Cinema, patrocinando a um filme de grande relevo.

Tinto Brass: o "Rei" dos eróticos italianos nos anos 1970

         Firmou-se o acordo. Bob Guccione, criador e dono da Penthouse, passou a patrocinar a produção da película, e inclusive, também participaria ativamente de sua realização, ao filmar boa parte das cenas eróticas da mesma.

Bob Guccione: o magnata da Penthouse que financiara a película

         Calígula saiu do papel em 1979, e chegou as telas do Cinema em 1980. Resultado: um verdadeiro filme pornô com grandes estrelas do Cinema. Isso porque se diretores e produtoras haviam recusado a participação em sua produção, não foi o caso de algumas das maiores celebridades da época que acabaram aceitando o convite para participar de tão polêmico e controverso filme. Foram os casos, principalmente, de Malcom McDowell, um dos principais atores da época, que acabou por interpretar o próprio Calígula, de Hellen Mirren, que interpretou Milonia, a esposa de Calígula, e Peter O´Toole que interpretou Tibério.

O Poster de divulgação da película

         Sexo e Sadismo. São as palavras que podem resumir a película. Calígula e toda a conjuntura histórica e política do Império Romano acabam por ser drasticamente reduzidos a uma prática desenfreada de sexo no decorrer de todo o filme. Sem censura alguma, o filme trazia sexo explícito com cenas fortíssimas, desde os bacanais com uma enormidade de pessoas, passando pelas práticas mais sádicas possíveis, até chegar as relações sexuais incestuosas de Calígula com sua própria irmã.

Malcom McDowell e Hellen Mirren como Calígula e Milonia, respectivamente.

         A película, como era de se imaginar, acabou sendo rechaçada por toda a crítica especializada. Roger Ebert, o mais famoso dos críticos americanos, deu nota 0 ao filme, considerando-o um lixo indescritível. Outros tantos críticos reforçaram o fato de que possivelmente em todo o filme apenas 6 minutos de seus 150 minutos sejam de qualidade, estando o resto voltado aos bacanais e sadismos de Calígula e de toda a trupe romana.
         O curioso da recepção da película por parte do público se dá no fato de que muitas pessoas desavisadas no decorrer dos anos 1980 e 1990, no auge das locadoras de filmes, desconheciam o caráter essencialmente pornográfico do filme e assim colocavam-no na secção dos filmes de cunho histórico e/ou épico. Como consequência, ao alugarem a película, muitas pessoas tiveram o constrangimento de desconhecendo tal aspecto, convidarem uma gama de familiares para assistí-lo e se depararem então com a pornografia total da película, causando então um enorme desconforto não só para quem convidou mas para todos os convidados. E é claro, houve quem alugou a película sabendo de todo o seu conteúdo. 
     Polêmico, controverso. Sádico e escatológico. Calígula tornou-se um dos filmes mais paradoxalmente repudiados e “cultuados” da história do Cinema, justamente por toda essa, podemos dizer assim, “ousadia estética” e principalmente pelo furor causado em meio a sociedade.

Ass. Rafael Prata
Mestrando em História na Universidade Federal de Sergipe

3 comentários:

  1. Apesar de chocante, vejo muito contexto nesse filme, retratando bem como agem os governantes no q se refere a extravagancias, ganância e até sadismo, q mesmo quando não vemos existem. E para humanizar o personagem Calígula, ainda tem o sentimento dele por sua irmã, havendo até uma cena realmente emocionante deles. Gostei.

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  2. Minha professora de história da sétima série passou esse filme pra gente. Ela demorou 20 minutos pra falar timidamente: "é gente... acho que esse filme não é muito adequado pra vocês não".

    Daí você imagina uma turma de sétima série vendo uma coisa dessas.

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  3. Quem eram as atrizes que fizeram as cenas de sexo explícito? Por que elas não são citadas? Por não serem famosas?

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